Presidente executivo do Facebook Mark Zuckerberg foto de Josh Edelson
Presidente executivo do Facebook Mark Zuckerberg foto de Josh Edelson

Há uma pegadinha nas tentativas, ao meu ver necessárias, de buscar a quebra da dominação quase absoluta de Google e Facebook em serviços de busca online e redes sociais, duas das mais novas e indispensáveis atividades da vida contemporânea.

A pegadinha é a seguinte: como Google e Facebook são gratuitos, a dominação que têm do mercado não se traduz em cobrança abusiva de preço aos seus consumidores finais. E cobrança abusiva de preços é o maior abuso contra a economia de monopólios ou cartéis que precisam ser combatidos.

Claro, Google e Face cobram dos anunciantes, que usam cada vez mais seus serviços para fazer anúncios, mas não de seus consumidores diretos.

Por isso, autoridades europeias estão usando um outro medidor de abuso econômico contra essas gigantes americanas: seu poder excessivo de coletar dados dos usuários, que lhes dá uma vantagem enorme diante dos concorrentes.

Na economia da informação, saber é poder. Já saber os dados íntimos de bilhões de consumidores é muito poder, que se traduz em lucros bilionários.

É justamente essa coleta intensa e abrangente de dados que faz Face e Google serem tão dominantes. Com isso eles conseguem vender aos anunciantes onde, quando e o que querem seus bilhões de usuários, informações valiosíssimas para o mercado publicitário e seus anunciantes (sim, no final quem roda essa roda é a boa e nova propaganda).

Reguladores europeus agora estudam como combater esse virtual monopólio que reduz a competição e a inovação, forças vitais do capitalismo. Eles já decretam multas bilionárias e avaliam medidas mais profundas, como forçar as gigantes a compartilhar os dados coletados dos usuários com outras empresas.

A baixa regulação do Estado sobre as empresas é uma das forças da economia americana e de suas megatechs, mas mesmo nos EUA grandes empresas foram sistematicamente divididas e reguladas quando se tornaram grandes demais —caso de petroleiras e bancos em séculos passados, por exemplo.

A propaganda, insisto sempre, continua sendo a alma do negócio. A coleta de dados tem tanta relevância econômica porque ela permite às companhias anunciantes, como nunca antes na história, encontrar o consumidor certo na hora certa para vender seus produtos e serviços.

Por isso Google e Facebook, em poucos anos, passaram as redes de TV americanas e se tornaram os maiores canais de faturamento publicitário —e com méritos, dada a eficiência do modelo montado em cima do fluxo infinito de dados gerados por seus bilhões de usuários.

Nessa nova corrida do ouro, a Amazon, que também sabe muito do que as pessoas estão consumindo por ser um site de compras tão abrangente e popular nos EUA, está cada vez mais investindo para se tornar uma plataforma de publicidade com poder exorbitante.

A demanda pela atenção desse consumidor-alvo, que está fazendo busca do que deseja no Google, comprando na Amazon ou navegando na rede social, é tão grande que ela é vendida em leilões instantâneos cada vez que acessamos esses sites.

Importante então saber que, assim como não existe almoço grátis, muita coisa na web que parece sem custo na verdade custa caro.

Google e Facebook não cobram dinheiro pelo uso de seus maravilhosos serviços. Mas cobram conhecer e compartilhar com o mercado seus dados mais íntimos e reveladores. Você já parou para pensar por quanto você está vendendo sua alma? No final, quem não está cobrando é você.

Nizan Guanaes

Empreendedor, fundador do Grupo ABC.