Imagem: Cadu Rolim - 6.abr.2020/Fotoarena/Estadão Conteúdo

Em dois meses, o total de mortes registradas como decorrentes do novo coronavírus no Brasil saiu de zero para 16.118, das quais 485 foram relatadas nas últimas 24 horas, segundo dados divulgados neste domingo, 17, pelo Ministério da Saúde

A notificação do primeiro óbito no País, de um paciente de São Paulo, ocorreu em 17 de março. De lá para cá, o Brasil se acostumou a, diariamente, contar corpos às centenas e a ver sistemas de saúde de algumas regiões caminharem para o colapso. 

O crescimento exponencial de novos casos de covid-19 é uma das mais preocupantes características da doença que em todo o mundo já matou ao menos 314 mil pessoas. Ela é mais uma enfermidade fatal entre tantos riscos aos quais todos estão expostos, mas com agravantes: não tem vacina e pode estar escondida sob o mais singelo contato físico. 

Hoje, o Brasil é o quarto País do mundo em número de casos confirmados e o sexto em total de mortes, conforme os números globais reunidos pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. Sem considerar as subnotificações, são 241.080 pessoas contaminadas, incluindo os 7.938 novos casos reportados neste domingo.

Até agora, a maior quantidade de mortes notificadas em uma única data foi em 12 de maio, quando o ministério confirmou mais 881 vidas perdidas em decorrência da covid-19.

Com um total de 4.782 mortes relatadas, apenas o Estado de São Paulo tem mais vítimas do que a China (4.638), onde surgiram os primeiros casos. A situação também é crítica no Rio de Janeiro, que já enterrou 2.715 vítimas da covid-19. Ceará (1.641), Pernambuco (1.516), Amazonas (1.413) e Pará (1.239) também estão entre os com mais óbitos. 

Para Airton Stein, professor titular de saúde coletiva da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, uma marca dos dois meses foi a falta de mensagens claras por parte de autoridades brasileiras sobre como a população deveria encarar a pandemia. Ele avalia que parte da população ainda não entendeu a gravidade da doença.

“O Brasil não está conseguindo ter taxa de infecciosidade menor, como está acontecendo em países da Europa, como Espanha e Reino Unido. No Brasil, a taxa de infecção continua alta. São várias as razões. A primeira é que nunca houve um problema que impactasse todo o País. E um aspecto que me chama a atenção é o fato de a população estar perdendo o medo de ir às ruas. E assim você acaba se contaminando nos detalhes. Ter mensagem clara e bem definida das lideranças é fundamental”, comentou. 

Ainda antes de conhecida a primeira morte, o comportamento do presidente Jair Bolsonaro era criticado por especialistas em saúde. No dia 15 de março, quando registros de pessoas infectadas já se acumulavam, o mandatário teve contato com pessoas que foram a uma manifestação em apoio a ele, em Brasília. Pouco antes, Bolsonaro esteve com o chefe da Secretaria de Comunicação, Fábio Wajngarten, que havia contraído o vírus.

“Não estou por dentro dos exames dele, mas se ele é um contato próximo de um caso confirmado, neste momento que estamos em um esforço máximo de contenção do vírus para evitar uma situação pior. Acho que, em primeiro lugar, como autoridade do País, seria importante ele dar esse exemplo de se resguardar”, disse ao Estadão, à época, Nancy Bellei, professora de infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia.

O presidente é crítico das medidas de isolamento social que acabaram por provocar fechamento temporário dos comércios. Bolsonaro se diz preocupado com a escalada do desemprego a partir da estratégia de reduzir a circulação. 

Na avaliação de Kleber Giovanni Luiz, chefe do departamento de Infectologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), outra lição que o País deveria ter aprendido nos 60 dias seria ampliar cuidados com a atenção básica. “O que temos que fazer como saúde pública é capacitar equipes, de médicos e enfermeiros, e também criar condições de trabalho, com leitos de UTI. Capacitar a atenção básica é fundamental. Não vi esse movimento. Vimos muito o movimento de terapia intensiva”, pontuou. /// Fonte: Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo