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Parintins
quarta-feira, junho 23, 2021

Quem não ouve o povo é incapaz de cuidar bem dele

Numa visita à cidade de Boa Vista, capital de Roraima, fiquei impressionado com algumas praças bonitas e bem planejadas que vi no centro da cidade. Famílias e crianças passeavam e brincavam nos espaços que acolhiam quem buscava um lazer em família. Fiquei mais impressionado ainda quando me falaram que as bonitas esculturas, da Praça das Águas, por exemplo, haviam sido feitas por artistas parintinenses. “Por que não temos espaços como esses em Parintins?”, pensava comigo.

A situação fazia eu recordar dos anos que morei no bairro Itaúna 2 e trabalhava no bairro Paulo Correa. Caminhando diariamente pelas ruas dos bairros, percebia a carência de espaços de lazer para crianças, jovens e adolescentes. Não havia uma praça, uma quadra ou qualquer outro espaço que pudesse acolher essas gerações e promover a elas e às suas famílias um entretenimento e um lazer saudável.

Anos depois, morando em outro bairro, Djard Vieira, fui dar uma volta pelas ruas do Itaúna 2 e Paulo Corrêa e vi que a situação não tinha mudado. Na verdade, fazendo uma observação geral de Parintins é possível constatar que são poucos os espaços para lazer e entretenimento em família. E os poucos que existem localizam-se no centro da cidade e são limitados. Possuem poucos bancos, lixeiras são quase inexistentes, a iluminação é precária (veja a praça da Liberdade) e o espaço não é organizado (veja a Praça dos Bois).

E nos bairros afastados do centro, o que temos? Ruas escuras e esburacadas. Não há praças e quadras são bem poucas. O jeito é ter criatividade e brincar de bola na rua ou nos campinhos improvisados. Coisa muito boa, mas que coloca nossas crianças muito expostas, num cenário que se configura de modo a facilitar a violência e a criminalidade.

Com crianças pequenas em casa, no final da tarde eu procurava uma praça nas proximidades de casa para levá-los para passear e brincar. Havia uma área verde, onde os moradores tentavam cuidar e cultivar algumas plantas e flores. Se a Prefeitura investisse no local, fazendo uma praça, por exemplo, poderia se tornar um ótimo espaço para as famílias do bairro.

Eis que um belo dia vejo uma obra iniciando naquele espaço e uma placa indicando a construção de uma academia ao ar livre. Era meado de junho de 2020. Fiquei triste e indignado.

“Mas por qual motivo?” Você pode se perguntar.

Veja bem! O recurso destinado a obra é dinheiro público. Portanto, deve ser bem utilizado e fiscalizado. E para ser bem utilizado é necessário colocar em prática o princípio da gestão pública com participação popular. Ou seja, antes de construir uma academia ao ar livre a prefeitura deveria consultar os moradores do bairro e verificar se esta era realmente uma necessidade dos moradores. Creio que isso não foi feito.

Ocorre a que obra iniciou. Foi feito um chão de concreto e depois a obra foi paralisada por causa da pandemia. O cronograma de execução, que previa a conclusão em 60 dias, não foi cumprido. O dinheiro investido foi da ordem de R$80.780,20. Informações estão na placa, como pode ser visto na foto.

Diante disso, faço alguns questionamentos: o não cumprimento do cronograma de execução acarreta alguma multa à empresa prestadora do serviço? Ou uma obra pode ficar parada assim, sem problema algum? O valor que consta na placa é referente a cada academia ou é o total das quatro que foram instaladas na cidade?

Depois de meses e meses, quase um ano de obra paralisada, eu aguardava mais alguma coisa além do chão de concreto para ver a conclusão. E, finalmente, foi concluída, aparentemente. Não sei se colocarão mais alguma coisa além dos aparelhos de exercícios que já foram instalados. Sendo que na academia da Praça da Liberdade nem tiveram que gastar com o chão de concreto.

Certo, na boca da noite, passei perto da academia e vi no local dois guardas municipais, um pai segurando uma criança no colo e uma mãe que caminhava com seu filho pequeno. Não tinha ninguém se exercitando. Talvez porque o espaço ainda não tenha sido inaugurado oficialmente. Não sei. Mas de uma coisa eu tenho certeza: para cuidar bem das pessoas é preciso ouvi-las para identificar suas necessidades e, então, propor projetos que atendam às reais demandas da população.

Enquanto os políticos ficarem propondo projetos sem antes consultar a população, achando que já conhecem a realidade das pessoas, as famílias parintinenses continuarão com a escassez de espaços para lazer e entretenimento, os bairros afastados do centro continuarão cada vez mais com infraestrutura precária e muitos continuarão iludidos com o bonito discurso de “cuidar bem das pessoas”.

A implementação de qualquer ação por parte do governo sem a participação popular significa o silenciamento da voz do povo. Mostra uma gestão que se acha de posse do saber e das melhores soluções para os problemas do povo. Mas a verdade é que quem não ouve o povo, não conhece as dores e as necessidades do povo. Quem não escuta a população, é incapaz de cuidar bem dela.

Por Phelipe Reis, jornalista.

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