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sábado, junho 19, 2021

Por que Pazuello tenta se esquivar da CPI da Covid?

Em quase 15 meses de pandemia, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello foi figura central na política do governo Bolsonaro para combater o novo coronavírus — esteve à frente do ministério de 16 de maio de 2020 a 23 de março deste ano, quando, após gestão desastrosa, foi substituído por Marcelo Queiroga. Não é razoável que Pazuello use todos os artifícios para evitar a CPI da Covid, que investiga ações e omissões que levaram o Brasil a superar a marca dos 430 mil mortos.

O depoimento de Pazuello está marcado para o dia 19, mas, ontem, atendendo a pedido da AGU, o ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo, concedeu habeas corpus para que Pazuello possa ficar em silêncio sempre que entender que não precisa responder a perguntas da CPI. A defesa dele temia que as declarações pudessem ser usadas no inquérito que investiga o colapso em Manaus, aberto pelo STF e remetido à primeira instância depois de ele ter perdido foro privilegiado.

Inicialmente, o depoimento estava agendado para 5 de maio, mas Pazuello o desmarcou na véspera. Alegou ter tido contato com dois assessores que testaram positivo para Covid-19. A desistência provocou críticas na comissão, mas, por deferência ao ex-ministro, os senadores abdicaram de pedir o exame de Covid-19. Porém se surpreenderam ao saber que a quarentena só valia para a CPI. Dois dias depois, ele recebeu no hotel onde estava hospedado o ministro Onyx Lorenzoni, da Secretaria-Geral da Presidência.

Pazuello, que chegou a ser treinado pelo Planalto para enfrentar a CPI, teria muito a esclarecer. A começar pela aquisição de vacinas. Há um consenso de que a atual escassez é decorrente da inépcia para garantir as doses no ano passado. Na quinta-feira, o depoimento do ex-presidente da Pfizer no Brasil Carlos Murillo expôs a negligência do governo, ao revelar que, desde maio de 2020, a farmacêutica fez ao menos cinco propostas que foram recusadas. Em agosto, ofereceu 70 milhões de doses — e não 6 milhões, como dissera Pazuello ao Senado — para entrega, de forma escalonada, a partir de 2020. Mas o contrato só foi assinado em março deste ano. Murillo afirmou ter tido apenas dois contatos com Pazuello, o primeiro só em novembro.

O depoimento seria importante também para jogar luz sobre o colapso em Manaus, onde pacientes morreram por falta de oxigênio. Pazuello até hoje não conseguiu dizer quando foi informado de que os estoques eram críticos. Precisa dar respostas ainda sobre a cloroquina. Um de seus primeiros atos como ministro foi ampliar o uso do medicamento para o tratamento da Covid-19, embora a droga seja comprovadamente ineficaz contra a doença, além de causar efeitos adversos graves. Teria de explicar também quem deu a ordem para que o Exército produzisse cloroquina aos borbotões, desperdiçando recursos públicos.

É certo que o depoimento de Pazuello, numa comissão em que o governo é minoria, não agrada ao Planalto. Qualquer deslize poderia respingar em Bolsonaro, e a situação até agora não é nada favorável ao presidente. Mas, em vez de tentar se esquivar da CPI, Pazuello deveria ajudar a esclarecer um dos momentos mais sombrios da história do país. É legítimo que se queira saber o que nos levou à calamidade, e Pazuello é peça-chave no quebra-cabeça. Afinal, tem medo de quê?

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