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sexta-feira, abril 16, 2021

Para quem a pandemia interessa, escreve Thales Guaracy

Depois que o Brasil passou da marca rotineira dos mais de 3.000 mortos diários por Covid, tornando-se o líder mundial da pandemia e ameaça planetária, está claro que o lockdown pouco funciona, da forma como vem sendo adotado. E que, para os políticos, a questão da saúde pública é mais uma peça-chave para a próxima disputa eleitoral do que uma preocupação real. A guerra das vacinas se tornou o palco central da busca por popularidade, seja para o presidente Jair Bolsonaro, seja para os governadores, ou mesmo para o ex-presidente Lula, egresso literalmente das masmorras, oferecendo-se novamente como um miraculoso salvador. 

A realidade, porém, segue sua marcha. Está nos ônibus e trens lotados por todos aqueles que, apesar da decretação forçada de feriados, do fechamento do comércio, do toque de recolher e outras medidas, continuam a ir para o trabalho, simplesmente porque sem isso não terão o que comer, indiferentes às encenações. 

Há pouca solução real para o povo brasileiro, e não é de hoje. No Brasil, a história se repete, da forma mais triste, e com as piores consequências. Para dar um exemplo, no Século XVII a então colônia foi assolada por uma pandemia de varíola, que matou sobretudo os índios, na época a maior parte da população, como conto no livro A Criação Do Brasil (1600-1700). A primeira onda das “bexigas” não atingiu os portugueses, mas dizimou cerca de 30 mil índios e negros em dois ou três meses na Capitania de Todos os Santos, pela estimativa do padre José de Anchieta. No ano seguinte, novo surto da doença espalhou-se por toda a colônia. Somente em Salvador e no Recôncavo, da população indígena de 80 mil pessoas, restaram cerca de 8 mil. Sem mão de obra, a agricultura foi abandonada e faltou comida. Os índios que sobraram ficaram numa miséria tal que se ofereciam como escravos em troca de “um prato de farinha”. “Diziam que lhes pusessem ferretes, que queriam ser escravos”, relatou Anchieta. De acordo com o padre Simão de Vasconcelos, alguns “se alugavam para servir toda a vida ou parte dela”, ou “vendiam filhos que geraram e até os que não geraram, fingindo que eram seus”.

Lembro a história porque ela mostra bem como as epidemias influenciam no futuro da sociedade. Desde essa época, os brasileiros se acostumaram à figura do “agregado”, um trabalhador que vivia dentro da casa do patrão, servia-o, mas não ganhava salário. Considerava-se um favor lhe dar serviço, lugar para dormir e o que comer. O agregado servia a vida inteira praticamente de graça ao seu patrão, e ainda devia ser grato pela acolhida e a convivência com a família.Desde então, não existe nem nunca existiu interesse real em salvar e dar dignidade ao brasileiro. Na história da nossa elite, o importante é mantê-lo a seu serviço a preço baixo ou nenhum. E a pandemia serve ao nosso capitalismo selvagem como as “bexigas” do século XVII. Rebaixa o trabalhador a pedinte, mais uma vez.

Enquanto não houver dignidade para o cidadão brasileiro, com educação, saúde, salário digno, a vida será sobrevivência. E o Brasil não será uma nação a se respeitar. Todo movimento de políticos que se mostram a serviço do povo, dentro do regime democrático, soam como populismo e demagogia – isto é, mera manipulação. No fundo, procuram apenas manter-se no poder, protegendo interesses próprios, à custa da miséria alheia.

É o que nos distancia dos países desenvolvidos, onde o cidadão tem força e dignidade. Aqui, os políticos e empresários, com poucas e gratas exceções, se tornaram uma casta vampiresca, que resiste aos tempos. E não percebem que, ao manter o país no atraso, num mundo que progride rapidamente em todos os sentidos, estão condenando a si mesmos também à morte, de maneira inexorável.

* Thales Guaracy, 55 anos, é jornalista e cientista social, formado pela USP. Prêmio Esso de Jornalismo Político, é autor de livros como “A Conquista do Brasil”, “A Criação do Brasil” e “O Sonho Brasileiro”, entre outros. Pertence ao board do Projeto Condorcet, plataforma colaborativa global para o desenvolvimento da democracia na era digital. Escreve semanalmente para o Poder360, sempre às segundas-feiras.

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