Aglomeração na Praia de Ipanema, no Rio, durante o feriado de 07 de setembro Foto: Luiz Gomes/ FOTOARENA

Os brasileiros aproveitaram o feriado da Independência para decretar por conta própria o fim das medidas de isolamento e prevenção à covid-19. Infringindo diversas regras municipais e estaduais, lotaram cidades turísticas, praias e bares, muitas vezes sem sequer usar máscara. Especialistas ouvidos pelo Estadão tentam explicar as razões neurológicas, sociológicas e econômicas que levaram parte da população a colocar em risco a própria saúde e também a de parentes e amigos mais próximos.

Algumas circunstâncias explicam parte do movimento. Este foi o primeiro feriado prolongado em que as regras da quarentena já estavam flexibilizadas. Ou seja, a primeira chance real, desde o carnaval, em que a população poderia viajar para as cidades próximas, frequentar restaurantes e até tomar um banho de mar, depois de passar mais de seis meses com movimentos bastante restritos. Mas a flexibilização é diferente de normalização e implica o cumprimento de certas regras. Não foi isso que se viu no feriado.

“As pessoas decretaram por elas mesmas o fim do isolamento, não há nenhuma dúvida sobre isso”, atesta o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unifesp. “E fizeram isso sem seguir as regras da flexibilização, que é um conjunto de novas condutas, que exige a modificação de hábitos, o uso de máscara, o distanciamento social, a higiene reforçada. Então, o que fizeram, de verdade, não foi a flexibilização, mas sim a normalização, a banalização da ameaça.”

De acordo com especialistas, existe um limite de tempo em que nosso cérebro consegue, de fato, prestar atenção em alguma coisa, levar a sério uma ameaça, até que aquilo começa a ser considerado normal.

“Existe um jogo dentro do cérebro humano ao analisar uma situação de risco”, explica Naime. “Inicialmente, a doença era muito desconhecida, não tinha ainda chegado ao País, havia uma histeria grande, muito medo, e muita gente foi para o isolamento.”

Agora que a epidemia já é uma realidade há mais de seis meses, muita gente decide que, se nada grave aconteceu consigo até agora, então não deve ser tão perigoso assim. Obviamente, o fato de a pessoa não ter contraído o vírus até hoje não significa que não possa contraí-lo amanhã mesmo numa praia ou bar lotado. E tampouco significa que não possa levá-lo a um parente ou amigo mais vulnerável.

“É um comportamento egoísta, de quem olha mais para si e menos para os outros, e faz uma avaliação equivocada de que talvez o maior risco já tenha passado”, explica o neurocientista Luiz Eugênio Mello, diretor científico da Fapesp. “Um outro ponto é a fadiga da quarentena, as pessoas se cansam de ficar em casa.”

Para o cientista social Renan Gonçalves Leonel da Silva, da Faculdade de Medicina da USP, o movimento visto no feriado seria, majoritariamente, da classe média, que neste ponto da epidemia tem registrado bem menos casos de covid do que as classes mais baixas.

“Essas pessoas têm acesso à informação, elas sabem que a pandemia não acabou, mas, quando vão avaliar o risco para si mesmas, aspectos não científicos pesam mais na hora de tomar a decisão”, explica Silva. “A classe média estava privada de seu papel de consumidor e agora essa bolha explodiu: ‘vou voltar ao meu papel porque já deu, vou resgatar a minha posição social a despeito da minha responsabilidade com a saúde pública’.”

Outro pano de fundo importante, segundo os especialistas, é o fato de que as notícias indicando que uma vacina pode já estar disponível no fim deste ano ou no início de 2021 se intensificaram, conforme avançam os estudos para o desenvolvimento de imunizantes, e também das notícias dando conta da redução da velocidade de crescimento da epidemia.

“A tendência da população é ir atrás do que é mais fácil de entender”, explica o cientista social. “Se todo dia temos 1.200 mortes e, num belo dia, temos 800, há um gatilho mental que nos faz entender que a epidemia está diminuindo, embora o número continue sendo muito alto.”

Sobretudo, dizem, nunca houve um discurso uniforme entre o governo federal e as autoridades estaduais e municipais. Pelo contrário, muitas vezes eles foram até contraditórios, o que também dificulta a apreensão da mensagem e estimula a ideia de que diferentes posicionamentos são aceitáveis.

“Aqui a epidemia se transformou numa questão política”, avalia a especialista em saúde pública Chrystina Barros, do grupo especial de combate à covid da UFRJ. “As autoridades não conseguem ser coerentes, muitas aglomeram sem máscara, são vários sinais trocados e maus exemplos.”

O grande problema, avalia, é que a aposta individual prevalece sobre a saúde coletiva. “Isso é muito ruim, muito ruim mesmo, um crime contra a saúde pública”, diz Barros. “Não há exemplo, não há fiscalização, não há coerção. E agora, mesmo quem ficou em casa está em risco.”

A Guarda Civil Municipal de Sasntos registrou, desde sábado, 5, até as 19h desta segunda,  2.800 orientações sobre uso da faixa de areia, 1.590 instruções sobre uso obrigatório de máscara facial e seis autuações referentes à presença de cães na faixa de areia. Ao todo, 52 multas foram aplicadas pelo não uso do item de proteção ou por resistir a usá-lo. /// Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo – COLABOROU GLAUCO BRAGA, ESPECIAL PARA O ESTADÃO