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segunda-feira, maio 10, 2021

“Mula” do tráfico de drogas, haitiana grávida morre em avião da GOL

Passageira passa mal e morre dentro do avião em voo saindo de Roraima. Essa notícia, publicada no dia seguinte à sua morte, ocorrida no dia 2 de abril, foi logo confirmada pela GOL Linhas Aéreas. Na nota, a companhia aérea, que tratou o caso como um “incidente”, dizia que “uma passageira passou mal a bordo”, mas não citava o nome da vítima ou detalhes do caso. A Amazônia Real apurou que a haitiana Elunise Clervil, de 27 anos, estava a bordo do voo G3-4984 quando passou a ter convulsões “com espuma pela boca”. Ela estava grávida de sete meses mas, segundo um passageiro da aeronave, foi confundida como “mula” do tráfico de drogas.

O voo da GOL, que iria para Brasília, fez um pouso de emergência em Manaus, capital do Amazonas. O socorro médico foi prestado à Elunise Clervil pela Infraero. O óbito foi atestado às 16h01 (17h01 em Brasília), menos de duas horas da passageira ter embarcado no avião em Boa Vista, às 14h42.

“Meu Deus, como assim? Ela, minha mulher? Suspeita de ser traficante? Oh, meu Deus, como assim? Minha mulher é crente. Nunca usou nem álcool ou cigarro”, revoltou-se Valmyr Westerley, ao conversar com a reportagem (Leia entrevista completa no final do texto). “Dizem que minha mulher morreu por falta de atenção e atendimento. Por preconceito racial e da pele. Parece que tinham medo de tocar nela. Se não tivessem medo, eles socorreriam, e ela não morreria com o filho na barriga.”

Ainda no dia 2 de abril, em São Paulo, o condutor de tratores Valmyr Westerley se preparou para receber a esposa Elunise Clervil para uma nova vida do casal. A aeronave Boeing 737, da Gol Linhas Aéreas, deveria fazer uma escala por volta das 19h30 em Brasília, no Distrito Federal. Aguardando no aeroporto de Guarulhos, Valmyr achou estranho que ela não tivesse chegado no horário previsto, depois de meia-noite, e passou a procurar a mulher.

Ele não sabia o que havia se passado a bordo do voo G3-4984. Às 15h37 daquele dia 2 de abril, a torre do Aeroporto Eduardo Gomes recebeu do avião o pedido de autorização para um pouso de emergência em Manaus. Às 16h, uma equipe médica da Infraero entrou no avião e atestou a morte da passageira.

“Presumiram que uma mulher negra, indo de Boa Vista com destino a São Paulo, começou a passar mal, espumar pela boca, era mula [do tráfico de drogas]. Ela não poderia ser uma mulher negra, grávida, que estaria indo encontrar o marido em São Paulo?”, protestou a advogada Dessana Paiva, da Pastoral do Migrante em Manaus. “O nome disso é racismo estrutural. Ninguém abriu a bolsa dela, onde estava tudo: fraldas, pasta com o caderno de anotações da gravidez, toda a documentação, com regimento médico.”

Segundo a plataforma Brasil de Direitos, racismo estrutural é a “naturalização de ações, hábitos, situações, falas e pensamentos que já fazem parte da vida cotidiana do povo brasileiro, e que promovem, direta ou indiretamente, a segregação ou o preconceito racial”.

Edda Ribeiro e Kátia Brasil, da Amazônia Real

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