Testes de coronavírus em laboratório Foto: Axel Schmidt/Reuters

Uma técnica em enfermagem de 24 anos voltou a apresentar sintomas da covid-19 pouco mais de um mês após ter testado positivo em um exame RT-PCR, que identificou o Sars-Cov-2 no seu organismo em 13 de maio e, depois, em 27 de junho. A informação foi confirmada pelo Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, por meio de estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da USP, e afirma que “a reinfecção e o adoecimento em mais de uma ocasião são eventos possíveis”. Após a divulgação do estudo, a universidade já investiga outros três casos, dois em São Paulo e um em Araraquara, de pessoas que teriam apresentado quadros similares ao da paciente.

A paciente começou a apresentar os primeiros sintomas da doença em 6 de maio, dois dias após ter entrado em contato com um colega de trabalho que testou positivo para a covid-19. Mesmo usando máscara cirúrgica, ela contraiu o coronavírus e sentiu dores de cabeça, mal estar, febre, fraqueza muscular, leve dor de garganta e congestão nasal. 

Os sintomas foram concluídos em 10 dias e a paciente passou os 38 seguintes assintomática, trabalhando normalmente. Em 27 de junho, ela acordou com forte dor de cabeça, dor muscular, mal-estar, febre, dor de garganta, perda de olfato e de paladar e, nos dias seguintes, seu quadro clínico piorou, apresentando diarreia e tosse. Nesse período, dois de seus familiares também foram diagnosticados com o coronavírus.

Já no quinto dia em que os sintomas voltaram a aparecer, a paciente foi novamente diagnosticada com o Sars-Cov-2 por meio de um novo exame RT-PCR, que coleta amostras da garganta (orofaringe) e do nariz (nasofaringe) com uma haste flexível. O estudo divulgado pelo HC aponta ainda que os sintomas agudos voltaram a desaparecer no 12º dia dessa “segunda infecção”, mas a dor de cabeça e a perda parcial do olfato persistiram até a data de divulgação da pesquisa. Ele também afirma que, mesmo 33 dias após a reincidência dos sintomas, a paciente ainda testa positivo para a covid-19.

“O presente caso apresenta forte evidência não somente de reinfecção por SARS-CoV-2, como de recidiva clínica da covid-19”, afirma a pesquisa, citando que apenas outro caso similar foi encontrado até o momento, em Boston, nos Estados Unidos. Ainda de acordo com o estudo, existe a possibilidade de que “um ou mais dos exames virológicos e sorológicos tenham apresentado resultado falso positivo”, mas ela é remota devido ao volume de evidências laboratoriais, clínicas e epidemiológicas.

Apesar de concluir que o caso “favorece a hipótese de reinfecção”, o estudo aponta que é preciso aprofundar ainda mais as pesquisas. “Essa constatação traz implicações clínicas e epidemiológicas que precisam ser analisadas com cuidado pelas autoridades em saúde.”

Reinfecção permanece incerta

Em meados de abril, a Coreia do Sul relatou que ao menos 116 pessoas recuperadas da infecção voltaram a testar positivo para o novo coronavírus. Uma semana antes, o país havia descrito 51 casos desse tipo. Uma das hipóteses levantadas na ocasião dizia que se tratava, na verdade, de uma reativação do vírus, que não foi totalmente eliminado e permaneceu “escondido” no organismo. Outra suposição era que os exames pudessem apresentar resultados imprecisos.

Essas deduções ainda permanecem e a infectologista Raquel Silveira Bello Stucchi, professora e pesquisadora do Departamento de Clínica Médica da Unicamp, comenta que, até o momento, ainda não existem estudos que comprovam casos de reinfecção. “Para falar que é reinfecção, tem de provar que o vírus do primeiro e do segundo são diferentes”, afirma. A médica explica que a segunda infecção teria de ser provocada por um vírus com alguma modificação genética mínima, não necessariamente uma mutação, que atestaria a mudança.

Vitor Engrácia Valenti, pesquisador e professor livre-docente na Unesp de Marília, tem acompanhado a divulgação de estudos sobre o novo coronavírus e diz que alguns deles mostram que o Sars-Cov-2 tem uma proteína específica que faz sofrer mutação. “Isso tem impacto forte no poder de ele infectar mais fácil as pessoas.”

Casos semelhantes

O relato da USP cita outros casos de possível reinfecção e fala em “recrudescência dos sintomas clínicos”, ou seja, haveria uma exacerbação ou piora dos sintomas após uma remissão temporária. “O que é possível de explicar é que o vírus permaneceu no corpo dela, ela se recuperou, mas pode ter tido um período de estresse e o organismo não estava totalmente preparado. Pelo fato de o vírus ainda circular (no organismo), ela voltou a desencadear sintomas. Considero essa hipótese mais plausível, porque não considera reinfecção, mas reativação”, diz Valenti.

Fernando Bellissimo-Rodrigues, professor da FMRP/USP e um dos responsáveis pelo estudo brasileiro, diz que ainda não se pode afirmar que esse foi o caso da técnica em enfermagem, mas considera “improvável que ela tenha ficado assintomática e depois o vírus tenha sido reativado”. 

Outros relatos apresentam histórico semelhante. Em 22 de julho, o jornal The New York Times contou o caso da fonoaudióloga Megan Kent, de 37 anos, que testou positivo para covid-19 em 30 de março e depois em 12 de maio, após fazer quarentena e se sentir melhor. “Dessa vez foi cem vezes pior”, ela disse. Novamente, a explicação mais plausível foi que o vírus permaneceu em algumas partes do corpo dela e ressurgiu em seguida.

Antes, em 4 de julho, um estudo publicado no The American Journal of Emergency Medicine apresentou um caso semelhante de uma mulher de 82 anos, da cidade de Boston, que, após recuperar-se da covid-19, teve novas comprovações respiratórias, radiográficas, laboratoriais e de exame RT-PCR referentes à reinfecção. Os pesquisadores disseram que, embora fosse possível, existem explicações alternativas.

“Resultados dinâmicos de RT-PCR (isto é, testes positivos e negativos oscilantes) foram descritos em pacientes com covid-19 com testes positivos ocorrendo após recuperação sintomática, radiográfica e vários testes negativos. As explicações alternativas mais comuns propostas para a verdadeira reinfecção incluem disseminação viral prolongada e testes imprecisos”, afirmaram os cientistas no artigo.

Duração da imunidade

Outros estudos apontam que a imunidade contra o novo coronavírus seria de curta duração, uma vez que dois ou três meses após ser infectada, a pessoa teria baixa dos anticorpos e, assim, estaria desprotegida. A justificativa é um tanto equivocada, segundo avalia Vitor Valenti.

“Quando você faz esse exame (RT-PCR) depois de dois, três meses, os anticorpos caem, mas isso não significa que caiu a imunidade contra o novo coronavírus. A pessoa que tem número pequeno de anticorpos, se for exposta de novo, os mesmos anticorpos vão aumentar concentração no sangue e combater vírus”, explica o pesquisador da Unesp. Ele completa que essa queda de anticorpos é uma resposta fisiológica natural do organismo, pois se a concentração fosse alta por muito tempo, a pessoa poderia ter outros problemas de saúde.

Há ainda estudos que falam de uma possível proteção de reinfecção, como o publicado pela revista Science em maio. Nele, macacos-rhesus infectados com uma dose de Sars-CoV-2 não mostraram sinais de reinfecção após se recuperarem de uma primeira infecção. Nesse ponto, Valenti cita que algumas pesquisas indicam que pessoas que já foram expostas a outros coronavírus, como o Sars-Cov-1, teriam um sistema imune capaz de reconhecer o novo coronavírus e dar resposta de defesa. /// João Ker e Ludimila Honorato, O Estado de S.Paulo