Escolas fecharam as portas em razão da crise do coronavírus. Foto: Wokandapix/Pixabay

Pela tela do computador, Leticia Bueno, de 15 anos, faz prova. Na sala virtual, as carteiras dos colegas – cada um com sua câmera ligada – se transformaram em quadradinhos de vídeo e até as inspetoras surgem de vez em quando na classe durante a avaliação. “É engraçado porque essa tensão da prova acho que nunca passa. Em qualquer situação, sempre é uma ansiedade, e vem um friozinho na barriga”, diz a aluna do 1.º ano do ensino médio do Colégio Poliedro, em São Paulo. 

Mesmo em ano de pandemia, com mudanças no formato das aulas e incertezas sobre o ano letivo, Leticia está de olho nas notas e não pensa em perder o ano. “A reprovação é algo que me preocupa. Isso me afetaria muito lá na frente.” Na semana passada, um parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou “fortemente” que redes de ensino e colégios de todo o País evitem reprovar alunos em 2020 e sugeriu diversificar as estratégias de avaliação.

Embora não seja uma norma – cada escola e rede de ensino tem autonomia para decidir reter ou não os alunos – o parecer do CNE funciona como um norte para eventual retorno às atividades presenciais. “Claro que algumas escolas tiveram condições de desenvolver atividades online, mas essa não é a marca geral. E não se pode dizer que ocorreu, nem mesmo em todas as particulares. A recomendação é prestar grande atenção para evitar a sensação de fracasso”, diz a relatora do parecer no CNE, Maria Helena Guimarães. 

Colégios particulares de São Paulo e professores se dividem sobre o tema. Se, por um lado, entendem que a reprovação deve ser uma medida extrema, mesmo antes da pandemia, por outro temem que um discurso de aprovação automática na escola acabe desestimulando os alunos que estão engajados nos estudos. Para os que não conseguiram se adaptar ao formato das aulas a distância, os colégios têm preparado plantões de dúvida, reforço e até mentoria entre alunos.

“Alguns alunos não cumpriram os objetivos e a gente tem procurado falar com eles, com as famílias, dizer porque não está bom e o que tem de voltar a fazer”, diz Luciana Fevorini, diretora do Colégio Equipe, na região central de São Paulo. “Se o aluno tinha condições objetivas de cumprir com tudo, não teve problema de acesso, foi avisado e, mesmo assim não fez, pode ser que haja alguma reprovação.”

Para Fabio Aidar, diretor do Colégio Santa Cruz, na zona oeste de São Paulo, a retenção deve ser vista com muito cuidado ainda mais em um ano como este. “Mas não temos nenhuma diretriz informando que haverá promoção automática.” Ele reconhece que, no início da pandemia, a escola “errou um pouco a mão” nas cobranças. “Exageramos na quantidade de atividades que exigíamos dos alunos.” Após pesquisas internas com os estudantes e professores, diz, a dose foi ajustada. 

Para Laura Galli, de 16 anos, se adaptar ao formato de aulas a distância foi um desafio no início e as tarefas pareciam se acumular. “Foi assustador para todo mundo, você começa a ter certa autonomia nos estudos e é responsável pelo seu cronograma. Tive dificuldade porque, se eu tinha um vídeo de meia hora para assistir, ia pausando e anotando tudo. Me sentia muito sobrecarregada”, diz a aluna do 2.º ano do ensino médio. Durante uma semana, o Santa Cruz reduziu a quantidade de atividades e abriu aulas específicas, com menos alunos em salas virtuais, só para sanar dúvidas de quem sentia que não estava acompanhando o ritmo. 

No Equipe, a volta às aulas presenciais, prevista para setembro, terá, além de protocolos de higiene e revezamento no recreio, um esquema de apoio aos alunos que tiveram dificuldades de seguir as atividades até agora. Os próprios estudantes devem formar grupos de monitoria para não deixar ninguém para trás. “Um garoto mais novo ouve mais um colega mais velho do que um professor. É um modelo mais próximo”, diz a diretora Luciana. 

A parceria entre os alunos pode ser tanto para debater os temas das aulas quanto para adaptações ao “novo normal”. “O monitor vai ser também aquele que fala ‘arruma sua máscara’ ou ‘você passou álcool em gel?’. Itens que não existiam na relação entre eles.”

Segundo Arthur Fonseca Filho, diretor da Associação Brasileira das Escolas Particulares (Abepar), cobrar do aluno o desempenho acadêmico é fundamental, “mas respeitando essa máxima de que a retenção deve ser evitada”. Nas escolas privadas de São Paulo, diz, já é baixo o índice de reprovação e os colégios têm condições de investir pesado em estratégias para prevenir a retenção. A tendência é de que índices de repetência sejam ainda menores neste ano. 

Rede pública

A situação é diferente, porém, nas públicas. O Brasil tem um dos maiores índices de reprovação do mundo, o que aumenta o risco de evasão. Professora de Língua Portuguesa e Tecnologias em uma escola estadual em Votorantim, no interior paulista, Cristiane Strieder ainda calcula o impacto da pandemia na rotina escolar.

Parte dos estudantes não tem acesso ao computador. Outros se envolveram nas aulas online, conversam com professores por aplicativos até mesmo à noite e nos fins de semana. “E tem os que não frequentam um plantão de dúvidas, não conversam conosco. Acho que esses teriam de refazer.” Ela teme que, em um retorno das atividades normais, as defasagens entre os estudantes acabem dificultando o trabalho dentro de sala de aula. “Não é reprovação no sentido de punição, mas de recuperação para que consigam complementar os estudos”, diz a professora. Por meio de nota, a Secretaria de Estado da Educação de São Paulo informou que “está em processo de discussão para definir diretrizes sobre temas como reprovação e avaliação dos estudantes”. 

Avaliação passa a incluir jogos, apps e textos 

Enquanto definem se reprovam ou não, algo já está mudando nas escolas: o jeito de avaliar. O distanciamento social imposto pela pandemia do coronavírus tem obrigado escolas a diversificar as estratégias de medir a aprendizagem. “Na sala de aula, um professor tem retorno imediato, a avaliação é diária. No online, não tem esse contato visual tão fácil. Desde o começo, um dos desafios foi como avaliar se está aprendendo”, diz Andrea Godinho, coordenadora do ensino médio do Colégio Poliedro em São José dos Campos, no interior paulista. 

Jogos, aplicativos e formulários para feedback dos estudantes têm sido usados pelo colégio para medir a aprendizagem – o sistema de atribuição de notas e o período de recuperação, agora online, foram mantidos. Até o programa usado para as aulas virtuais ajuda. “Dentro dele, temos relatório de quantos minutos o estudante ficou logado, se entrou para assistir a aula ou não. Se tinha ficado pouco tempo, ou não entrado por dois dias, havia contato com as famílias”, explica Andrea.

“Tem professor que pede para o aluno escrever o que acha mais importante, comentar o que achou que dominou plenamente. O importante nesse período de avaliação é que é um processo continuado, que o aluno reflita sobre o processo de aprender”, diz Diane Clay Cundiff, diretora do Colégio Santa Maria, na zona sul de São Paulo. Para ela, o foco deve estar mais na aquisição de competências – interpretar, debater, resolver problemas – do que nos conteúdos. Mas ainda há provas tradicionais. E como saber que o aluno não vai pegar o livro? “Isso se chama vida real, não se faz nada sem consultar.”

Uma das provas que a aluna Laura Galli, de 16 anos, mais gostou de fazer em casa foi a de Filosofia, que trouxe textos para interpretar. A professora disse que os estudantes poderiam consultar livros e a internet. “Ela aceitou essa falta de controle que teria sobre a prova. Senti que aprendi enquanto estava fazendo”, diz a aluna do Santa Cruz. Leticia Bueno, de 15 anos, aposta na honestidade. “Vai de você, do que você quer para sua vida. Acho que colar não é a melhor estratégia e preciso estudar”, diz a aluna do Poliedro. 

Parecer aprovado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) também recomenda que escolas priorizem a avaliação de competências como leitura, escrita, raciocínio lógico, comunicação e solução de problemas. 

“Os instrumentos tradicionais de avaliação ficam em xeque. É preciso considerar que a consulta e a conversa com o colega podem vir a acontecer”, diz Wagner Cafagni Borja, diretor do Colégio Gracinha, na zona oeste paulistana. A escola já se prepara para um eventual retorno em setembro e pretende dar prioridade aos alunos do 3.º ano do ensino médio, que estão concluindo a educação básica e devem prestar vestibular. /// Júlia Marques, O Estado de S.Paulo