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terça-feira, abril 13, 2021

Casagrande: Brasil quase 300 mil mortos na pandemia e jogadores só pensam em ter, em ostentar e em comentar reality show

O ex-craque do Brasil e comentárista Casagrande fala ao jornalista Nelson Lima Neto sobre pensamento crítico no futebol, pandemia e política.

Ao que você relaciona a falta de coletividade, a falta de noção da realidade dessas estrelas? Quais características esses adultos têm que os deixam mais propensos a essas situações?

Acho que a maior parte deles é infantilizada. Quando fiquei internado um ano no meu tratamento de dependência química, passei a descobrir as síndromes que tinha desenvolvido ao longo da vida. E uma bem comum aos dependentes químicos é a “Síndrome do Peter Pan”, aquela coisa de você se recusar a virar adulto, de sempre se comportar como um adolescente. Essa geração tem uma recusa muito forte de amadurecer. Vive no meio de um conto de fadas, que os tira totalmente do eixo. Neste caso específico, temos exemplos de jogadores que são mais maduros. O Willian e David Luiz (Arsenal), Filipe Luís (Flamengo), Thiago Silva (Chelsea)… temos vários jogadores brasileiros que entendem a realidade dos fatos, mas não se comprometem, e também não são obrigados a isso, que fique claro. Esta semana, o Neymar comentou sobre a pandemia brevemente em suas redes sociais. Tem uma grande parte que se recusa a ter responsabilidade e só faz brincadeiras nas redes sociais. Coisas infantis mesmo, de adolescente precoce.

Você atuou com jogadores politicamente e socialmente envolvidos com as questões do país, gente que lutou pela democracia, e cresceu vendo outros tantos. É possível voltarmos a ter uma geração de atletas com esse pensamento?

Eu já ia às manifestações na adolescência. A primeira delas foi aos 15 anos, em um show no Corinthians pela anistia dos presos e exilados políticos. Foi a primeira vez que participei mesmo. O policiamento de choque invadiu a sede dando porretada em todo mundo. Eu era juvenil e tinha treino às 9h. Naquela correria, nem consegui ir para casa. Entrei numa galeria na Rua São Jorge, que fica em frente ao clube, e só saí de lá para treinar de manhã. Foi o primeiro contato que eu tive com o conflito, onde vi que a coisa não era brincadeira. Dali em diante, sempre fui muito corajoso neste sentido, defendendo minhas ideologias e pensamentos. Este foi o motivo que me levou a sair do Corinthians na primeira vez. Eu não me adaptava à gestão do presidente Vicente Mateus. Mas eu era uma grande revelação do clube, um patrimônio, em que todo mundo apostava. Fui para a Caldense, voltei e começamos a formar a Democracia Corinthiana, liderada pelo vice-presidente de futebol na época, o grande sociólogo Adilson Monteiro Alves; Sócrates, Wladimir e eu. Ali tive total liberdade e apoio, fazendo parte de um grupo em que a maioria pensava como eu. Eles, com 27 ou 28 anos, eram maduros. Eu ainda era um adolescente totalmente rebelde. Essa mistura casava. Eu nunca deixei de me manifestar porque tenho isso dentro de mim. Contestar e lutar pela democracia são as coisas mais importantes que eu tenho dentro de mim. Elas nasceram comigo e irei brigar até o fim para ter liberdade e viver em democracia. A terceira coisa que eu conquistei foi a sobriedade, que também se relaciona com a liberdade. Enquanto eu usava droga, eu era um escravo dela. A partir do momento em que alcancei a minha recuperação, a liberdade de viver ficou aflorada. Isso foi uma novidade e uma conquista para mim.

Diante de uma pandemia com quase 300 mil mortos e com um presidente que incentiva a aglomeração e nega as indicações da ciência, qual a sua avaliação por não existir uma voz no futebol de combate a esse tipo de postura?

Grande parte dos jogadores tem receio de falar alguma coisa, não gosta de se comprometer com política. E muitos outros concordam e fazem parte daquilo. Quem tinha que depor e ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional são as pessoas que espalham fakenews e dúvidas nas cabeças dos mais humildes, e distorcem informações importantes para a sociedade. Quem faz isso é o presidente, a família dele e todo o grupo bolsonarista que o cerca. No meio de uma pandemia, com o país batendo recorde de mortes a cada dia, de contaminações, na minha opinião, isso é crime. O país todo em estado crítico e ele dá risada, concorda com manifestações contra o isolamento social, incentiva a aglomeração. Sempre criticou a máscara, debochou da doença. Tratou com descaso as famílias que perderam parentes queridos usando frases clássicas de um sujeito negacionista. O grande objetivo dele é destruir o país. É o que está fazendo com a Amazônia e o Pantanal. Não dá auxílio algum aos indígenas e quilombolas. Ele deve desejar mesmo que esses povos deixem de existir. Vemos clubes, federações e confederação seguindo o mesmo caminho. Todos estão lutando para o futebol não parar no meio de um caos total, de um colapso nos hospitais e pessoas morrendo enquanto esperam os leitos das UTIs vagarem. Não existe sensibilidade alguma. Qualquer empatia. O presidente da CBF outro dia mesmo se reuniu com o Bolsonaro. Foi lá fazer o quê? Mostra que concorda com o que ele está fazendo. Para mim, por ser do meio do futebol, por ter sido jogador, é uma grande decepção ver este tipo de comportamento.

ACESSE COLUNA do jornalista ANCELMO GOIS no GLOBO 

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